July 20, 2021No Comments

Retribuir o favor

Uma criança faz amigos partilhando gomas no recreio da escola. Na juventude, ajudamos os nossos amigos fazendo de wingman nas saídas à noite. Como adultos, o nível de confiança e cumplicidade entre amigos demonstra-se assim, encontrando os carros dos seus sonhos.

Já vos apresentei o Filipe no Verão passado, quando leram nesta revista a reportagem que fiz no passeio “De cabelos ao vento” por Sever do Vouga, co-organizado por ele. Deixem-me que o apresente de novo: O Filipe é mais um dos bons amigos que fiz para a vida, através dos clássicos. Conhecemo-nos por acaso em Junho de 2016, quando eu ainda morava em Aveiro, no fim de semana em que ajudei a trazer o encontro nacional de Toyota Starlet à cidade do sal, da ria e dos canais. A nossa filosofia e saber estar neste meio ditou que mantivéssemos o contacto, partilhando vários quilómetros de estrada em encontros de descapotáveis.

Em Outubro de 2017, depois do acidente que ditou o fim da minha história com o pequeno Starlet Ep70 que tinha até então, o Filipe acabou por salvar o dia de duas formas, uma direta e outra indirecta. A quantidade de contatos que recebi após criar o anúncio na internet foi avassaladora. Afinal de contas, todas as partes que não foram atingidas pela árvore de carvalho da rotunda da Rua Mário Sacramento, estavam como novas, fruto de 2 anos de dedicação intensa ao seu restauro. Se fosse hoje, o mais inteligente a fazer seria desmontar o carro e vender às peças. A procura é imensa, ainda para mais tratando-se do modelo XL, com nível superior de acabamentos. Contudo, o timing não podia ter sido pior. Estava em processo de mudança de casa em Braga, a sair de uma relação e o facto de estar tão abalado pelo sucedido fez com que quisesse fechar aquele capítulo da minha vida o mais rapidamente possível e seguir com a vida. Um dia liguei ao Filipe e perguntei-lhe diretamente se não me queria ficar com o carro. Afinal de contas, ele é um coleccionador de Toyota, e andava também à procura de um ep70. Sabendo disto, vendi-lhe a um preço verdadeiramente simbólico, sabendo que ia dar bom uso às peças, quando encontrasse o carro base. Sei perfeitamente que estou a romantizar o mais trivial dos gestos, mas senti que lhe fiquei a dever um favor.

Apesar de negativa, esta experiência deu-me um empurrão para realizar algo que queria experimentar há muito. Um clássico no sentido tradicional do termo: Anterior a 1980, tração traseira, pára-choques cromados, volante em baquelite, travões sem servo-freio, bancos em napa. O mais arcaico que encontrasse. Tinha umas poupanças guardadas, e lancei-me ao desafio. No dia 4 de Novembro, um sábado, estava eu e o meu pai a caminho de Santa Eulália, Arouca, para fechar o negócio do meu atual KE20 cinza-prata. O meu pai voltaria para o Porto e eu seguiria caminho para o Caramulo, onde fui fotografar a colecção de brinquedos do museu. Decidi ignorar totalmente se o Corolla estava ou não em condições de fazer 400km no seu primeiro dia de rodagem depois de vários anos parado. O entusiasmo era demasiado para não o fazer. No dia seguinte, 5 de Novembro, Domingo, tinha o convite do Filipe para participar em mais um dos seus encontros “de cabelos ao vento”, exclusivos na altura apenas a Mazda MX-5. No final de Sábado saí do Caramulo a caminho de Aveiro, onde pernoitei na minha antiga casa, onde ainda morava uma grande amiga minha, ela própria também fã de clássicos. Decidimos ir de carro até à praça do peixe, apesar de serem uns meros 1000 metros até lá a pé. Não aguentava o entusiasmo, tinha que ser. 

5 de Novembro de 2017. Um dia depois de ter adquirido o meu Corolla. Terminado o passeio de Domingo, ao regressar a Aveiro ao final do dia, o Filipe estava desejoso para ver com os próprios olhos a nova aquisição e não demorou dez segundos a comentar:

"Preciso que me ajudes a encontrar uma coisa destas para mim". Assumi que ele estava a brincar, mas com o passar dos meses, apercebi-me que a intenção era real. O meu KE20 foi encontrado em tempo recorde. 2 meses. Fulcral nesta busca foram os meus amigos Miguel Vale, Pedro Meixedo e João Freire, do AJA - Amigos dos Japoneses Antigos, clube de clássicos do qual me orgulho de ser sócio. Com eles apercebi-me que quanto mais popular e comum é o clássico, mais exemplares existem à venda, mas também mais fácil é de sermos “enganados”, se não conhecermos a fundo todos os detalhes e fraquezas dos modelos. E todo o conhecimento que obtive o AJA fez-me ficar confortável para retribuir o favor na minha nova missão. Lembro-me de correr anúncios de Viana a Faro. Porto à Guarda. Às vezes partilhados pelo Filipe, outras vezes sugeridos por mim. Mas havia sempre qualquer coisa que deitava o negócio abaixo. Restauros mal feitos, preços exagerados, número errado de portas, detalhes incorretos, vendedores duvidosos, fotos com 10 anos. Havia sempre qualquer coisa. Ainda hoje guardo alertas das pesquisas de 2017 Um dia abri uma notificação para ver este exemplar de 1973 que vê nas imagens, fase 2, deluxe, duas portas, todos os frisos e detalhes corretos (à excepção dos tampões das rodas), e estava em Gaia! Enviei imediatamente mensagem ao Filipe e o interesse foi imediato. Várias visitas depois, e conseguindo negociar muito bem o preço, um dia acordo com uma mensagem que dizia: “Joel. Bom dia! Perdi a cabeça e tenho agora mais um Toyota na coleção! O tal KE20. Tu és o culpado. Mas agradeço-te na mesma. Abraço”. Ainda meio a dormir, não me lembro se me senti contente, ou com medo por ter perdido um amigo. Felizmente não foi o caso, e dias depois estávamos a marcar uma sessão informal na oficina do ACP no Porto. A inveja é um sentimento muito feio, eu sei. Mas há alturas em que nem faço o esforço de a esconder. Este deluxe está impecável. O exemplar mais correto e honesto que vi à venda em muito tempo.

3 anos e meio depois, incontáveis anúncios e pretendentes falhados, está por terminada esta busca, estou muito invejoso, mas feliz. Acima de tudo:

O favor está retribuído.

August 2, 2020No Comments

Rider 2020

“Eu nem sou de praia”, mas gosto de apanhar um bom sol quando está calor. “Eu nem sou de Pop”, mas não dispenso uns ABBA para desenjoar dos meus gostos musicais pretensiosos. “Eu nem sou de futebol”, mas não falho um jogo da seleção. Isto para dizer: “Eu nem sou de motas”, mas já não perco um Rider.

O Museu do Caramulo é reconhecido na comunidade de clássicos por três grandes razões: Pela relevância histórica do edifício e das suas exposições temporárias e permanentes; Pelo MotorClássico na FIL em Lisboa em Abril, e pelo Caramulo Motorfestival em Setembro. Mas existe uma 4ª razão que acredito que nunca tenha ouvido falar. Um passeio de endurance para motas com um mínimo de 30 anos, pelas estradas mais bonitas do centro de Portugal. Um fim de semana com uma organização que não se poupa em tudo do melhor que a região centro tem para oferecer.

Como qualquer boa ideia, o “Rider - Passeio de motos clássicas” teve a sua génese num ajuntamento informal organizado por um trio de amigos, com rumo a lugar nenhum, mas com o critério que o caminho tinha que ser bom. Nove anos depois, podemos contar 64 motas nas inscrições, apenas menos seis que no ano recordista de 2019. Um feito inacreditável, face às circunstâncias totalmente díspares entre os dois anos e ao facto de, dada a pandemia ter fechado as fronteiras, todos os participantes espanhóis não conseguiram vir este ano. Aos três fundadores, juntam-se agora regularmente “riders” de vários países da Europa, que se deslocam a Portugal propositadamente para este passeio. Porque não resistem às nossas estradas, à paisagem, à gastronomia portuguesa, ou mais provavelmente, todas em simultâneo, tendo como bónus o valor da inscrição ser baixíssimo para a qualidade.

Seguindo a assinatura dos eventos da casa, o Rider consegue um balanço perfeito entre familiaridade e ambição. Entre os participantes, em 2020 destacam-se algumas personalidades por razões completamente distintas, mas que vêm trazer ao evento uma visibilidade e credibilidade invejáveis: Do lado desportivo, Francisco Sande e Castro dispensa apresentações. Com as suas duas participações no Rally Paris-Dakar, é já uma cara conhecida dos eventos no Caramulo. Do lado social, o artista e entusiasta das motas, José Fidalgo, reconhecido generalizadamente por toda a população portuguesa como aquele entérprete sexy das novelas. Representando a Yamaha, Luís Figueiredo manteve um sorriso rasgado durante todo o evento, sempre acompanhado de perto Manuel Portugal, reconhecido fotógrafo e empreendedor do meio, e um ídolo pessoal que tive a chance de conhecer pessoalmente. Estas referências não são ao acaso. São a prova que o Rider é um evento com uma credibilidade crescente, e cuja relação próxima com as marcas é um exemplo a seguir.

A caminho da 10ª edição, o Rider quis usar esta nona edição para testar a implementação de várias ideias novas: Reformulou completamente o Branding, associou-se a marcas do grupo léxico das motos como a RUA ou a Mariano Shoes. Reforçou o grupo de assistência e catering, e houve pela primeira vez, para meu conforto inclusivé, um carro oficial de media cedido em parceria com a Guerin, outro dos patrocínios do evento. O feliz contemplado para a tarefa herculana foi um Renault Scenic, que depois das provas dadas deste fim de semana, não terá problemas em garantir homologação e entrada directa no próximo Rally de Portugal. A equipa de media consistiu em quatro ilustres personalidades: João Lacerda e Salvador Patrício Gouveia do Museu do Caramulo, nas qualidades de “stunt driver” e de disk jockey, respectivamente. Na mala seguiu uma equipa de carecas designers, fotógrafos e videografos: Eu e o Bruno Pereira, cara conhecida destas andanças e um dos maiores dadores de sangue em Portugal. Ninguém quer saber, mas ele faz questão de relembrar.

O alinhamento de participantes contou com uma larga variedade de modelos, desde a clássica Vespa a motos de competição, incluindo mesmo uma histórica Harley-Davidson WL de 1946, que outrora pertenceu à antiga Polícia de Viação e Trânsito, munida ainda da sua sirene original.

O roteiro incluiu passagens pelo Piódão, Beira Baixa e Caramulo, e teve como pontos altos a visita exclusiva à colecção de José Megre, o piloto todo-o-terreno e o primeiro português a organizar uma equipa para participar no Paris-Dakar em jipes UMM, e a visita às reservas e às oficinas do Museu do Caramulo, que se encontram numa área reservada e fora do alcance do público e guardam dezenas de automóveis e motociclos da colecção do museu que não se encontram em exposição.


Enquanto o Museu do Caramulo já está a organizar o 10º aniversário do Rider, no fim-de-semana de 11 a 13 de Junho de 2021, tratem de colocar a mota clássica lá de casa a trabalhar, ou comprem uma, se a vossa mãe deixar. Vai ser imperdível, e quem o diz sou eu, e “eu nem sou de motas.” 

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